28 maio 2008

O Sino da Minha Aldeia

Diziam que um dia o roubaram. Diziam que um dia o resgataram. Os velhotes contavam coisas sobre ele como se se tratasse de um velho amigo. E contavam sempre como se fosse a primeira vez. Não para ensinarem nada, mas porque mastigar as palavras dava gozo.
Ouviam-se uns aos outros à porta de uma taberna, só para terem a certeza que o tempo não tinha parado.

Mas apesar do consolo que as badaladas lhes davam, assegurando-lhes que as suas vidas continuavam prosseguindo, precisavam do som familiar e cúmplice do velho sino de bronze da torre da capela de Aguim para terem a garantia que estava tudo na mesma.
Os velhos só não precisavam do sino da capela para saber as horas; nos dias frios de Inverno sentavam-se ao sol, nos dias quentes de Verão sentavam-se à sombra, e iam mudando de lugar pela tarde fora a perseguir o conforto que a Natureza lhes oferecia, assim de borla, à velocidade que o sol marca as horas no chão com a sombra das coisas, e isso bastava-lhes.
Falavam de assuntos para nós totalmente misteriosos, de outros tempos, de outras vidas, coisas que tinham a idade do velho sino de bronze.
Contavam coisas de uma guerra que tinha havido na Europa e onde um deles tinha combatido. Os olhos do veterano parecia que deixavam de ver as coisas em seu redor enquanto falava, e os outros faziam um raro silêncio de solenidade.
De vez em quando o taberneiro trazia-lhes uma rodada e eles davam gargalhadas de prazer, enquanto nós passávamos por eles como se a nossa história e a história deles se tocassem apenas, como dois livros abertos ao acaso que roçassem levemente um no outro.
Eles ficavam tentando segurar o Tempo e nós levávamos o Tempo connosco. Descíamos o Barreiro para irmos nadar no rio da Ribeira. Que voltas deram estas palavras através dos tempos para que se diga hoje que um rio pertence a uma ribeira? Tomávamos banho nus e tínhamos que esconder bem a roupa para que as lavadeiras, mais abaixo, não no-las viessem roubar, decerto só para nos verem em pelo.
Como aquele expediente já não resultava, vinham às vezes protestar pelo nosso indecoro, e nós então, nadávamos de costas para que o nosso indecoro fosse realmente visível. E o sino de Aguim ia dando as horas para quem as quisesse ouvir. Se prestássemos atenção ouvi-las-íamos mesmo a esta distância.
Da Ribeira até ao Peneireiro havia muito percurso possível, mas nós não escolhíamos o menos longo. Nenhum de nós era um estudante aplicado, mas todos sabíamos que nem sempre a reta é o caminho mais curto entre dois pontos; ou isso, ou as árvores de fruto e as melhores videiras, faziam com que às vezes demorássemos a tarde toda para chegar ao Peneireiro.
O Peneireiro era o único sítio do mundo onde se podia comer uma sandes pelo preço do pão. Pedíamos um copo e uma sandes de cinco tostões, e o taberneiro pincelava um pão da Mealhada com molho de leitão e enchia o copo do próprio pipo.
E o sino ia dando as horas sem nós nunca darmos por isso. O sino pertencia à própria vida, como o sol e a sombra, como a água do rio da Ribeira, como as lavadeiras matreiramente escandalizadas com a nossa nudez, como as gargalhadas temperadas com um tinto, dos velhos à porta da taberna; e nós tínhamos a idade de quem nunca quer saber as horas.
Ele batia, bronze no bronze, pacientemente, sem pressas, mais convidando à preguiça que ao labor. Nós não ouvíamos e os velhos fingiam não ouvir, uma após outra, as badaladas chocalheiras do velho sino de Aguim; todas as badaladas necessárias para as pessoas saberem a quantas andavam. O som viajava por sobre as casas e os campos, como um lençol sonoro; e se fossem as trindades, os camponeses paravam como se fossem dizer as Avé Marias, aproveitando para se libertar um pouco do jugo do trabalho da terra. Os homens paravam as conversas, as mulheres os cantos, com que iludiam o castigo da lavoura. E uma paz imensa caía sobre eles à medida que as badaladas do velho sino de Aguim viajavam nas ondulações do ar por sobre as suas cabeças, como uma bênção divina.
Mas os velhos só ficavam em silêncio quando o ex-combatente falava das agruras da guerra. 
Durante toda a minha infância a guerra era aquele brilho líquido nos olhos do veterano a recordar as torturas às mãos dos alemães.
Como é estranho que não fosse de ódio! Parecia antes um grande desgosto. Mas que pode sentir um filho sacrificado pela pátria e que esta abandona nas prisões do inimigo? Ele a repetir as imprecações dos alemães em várias línguas na mesma frase. – Allez raus come on! E depois os olhos líquidos e a voz ecoando: camóne camóne…
E durante anos e anos, de geração em geração, até aos dias de hoje, a memória dessa imprecação perdura como uma condecoração póstuma na alcunha dos seus descendentes.
E depois vinha mais uma rodada e a conversa ganhava gargalhadas de novo.
As mesmas conversas de sempre. Como se fosse a primeira vez que as contavam, a fingirem que nem se davam conta.
Tal qual como faziam ao ouvir o sino. E ele, chegando a altura, dava as horas; duas vezes, para os distraídos.
E a hora chegou, foram embora. O tempo passou num instante.

09 março 2008

A Incerteza do Sol Nascente

Ao abrir a porta iria jurar que te ouvi dizer “Já viestes?” como era costume, e quase respondi “não mãe, ainda lá estou”, como sempre respondia com o meu sarcasmo que tanto te desconcertava, mas que nunca conseguia irritar-te; mas depois veio-me à memória a tua mão estendida ao lado do teu corpo, na cama do hospital, e a casa tornou-se vazia de um momento para o outro.
A porta da rua fechou-se sozinha como é hábito nos filmes de suspense e eu olhei para trás e depois deixei-me ficar a juntar as letras, vistas de trás para a frente, à transparência na vidraça, alinhando-as mentalmente: “Aluga-se.”
Os sons dos meus passos prolongam-se nas paredes, desconfortáveis sem o aconchego dos móveis. A cada porta que abro para uma dependência vazia, o desalento de um livro sem palavras.
Agora a tua mão apareceu na minha memória, vazia e inerte no colchão do hospital e eu percebi porque não me perguntaste se eu já tinha vindo. A mesma mão que segurou a mão do meu pai, um ano antes. A mão dele a levantar-se do colchão com gestos sincopados de inseto, tateando o ar em busca de um último afeto, e a tua a pegar-lhe num derradeiro ato de amor. Um segundo depois o braço dele transformou-se num tentáculo flácido de molusco e a mão escorregou da tua para o colchão e do colchão para o soalho e, num movimento pendular parou ao tocar o chão, a mostrar que o tempo tinha acabado.
Ninguém quer saber o que umas paredes nuas e frias guardam em si, dos seus moradores, como uma peça de roupa que soubéssemos ter sido usada por um ente querido. Mas será que uma vez tocada, cada parede destas não guardará para sempre um átomo que seja da mão que a tocou? Não guardará o eco das palavras ditas? Das alegrias e das mágoas? Das imprecações e das preces? Será que só na memória dos homens perdura por algum tempo o que uma vez aconteceu, e que tudo o mais é volátil; como a promessa que fizeste aqui, quando me viste partir para a defesa serôdia do império moribundo? Será que estas paredes guardam ainda o teu apelo, já que a Virgem de Fátima se esqueceu dele?
Havia dias, como hoje, em que o pôr-do-sol pintava tudo em cores quentes e do terraço eu olhava-o seguro de que Deus o haveria de fazer nascer no dia seguinte, e depois ia dormir sem remorsos nem temores. Mas hoje sei menos do que quando era criança; olho o sol e não acredito que Deus tenha as coisas sob controlo. Pode muito bem acontecer que se esqueça de o fazer nascer amanhã. Hoje não irei dormir sem remorsos.
Ao menos se a voz quase humana de um violoncelo acordasse o calor das vozes esquecidas; ou o som da chuva na vidraça, tão próximo da música, restituísse a alma a esta casa deserta; ou faltando tudo o mais, se ao menos um eco, que tivesse ficado reverberando por entre estas paredes dissesse o meu nome e perguntasse “Já viestes?” só para eu ter a certeza que regressei a casa…
Espreito pelo vidro sujo da janela para o pátio onde falta a velha figueira. Como morreu a velha figueira? Sinto uma dor imensa por não me lembrar; como se tivesse perdido a oportunidade de lhe dizer algo de muito importante e íntimo; como se tivesse remorsos de não ter vertido uma única lágrima pela sua morte. Até parece que uma música parou repentinamente dentro de mim. Talvez por isso a laranjeira se recuse a dar laranjas, ressentida pela minha ingratidão. Não sabe que as comíamos apenas por amizade, dado que eram um pouco azedas “São muito boas para acompanhar o leitão” desculpava-a o meu avô, que a conhecia desde pequenina… e nós sorriamos de ternura.
Também devo ter sido infeliz aqui, mas não me lembro.
Só me lembro de estarmos à mesa a falar todos ao mesmo tempo e de vir o cheiro bom da urze a arder na lareira. Porque será que punham urze no lume? Jamais o saberei agora. Talvez fosse para tornar mais aromática a minha saudade futura.
Sinto que um poema, ou qualquer coisa parecida, nasceu algures no fundo de mim, ao pensar nisto, mas ainda não lhe conheço as palavras; só quando a música regressar ao meu corpo ele virá à superfície, palavra por palavra. Espero saber colhê-las como flores, ou como frutos, ou como simples pedras a enfeitar a beira da estrada.

Como tudo deveria parecer mais harmonioso quando o Sol era o deus festivo e generoso que dava a luz e a vida. Como tudo deveria ser mais simples quando só se acreditava no que se entendia. Mas desde essa infância dos tempos, a humanidade evoluiu, transcendeu-se e finalmente ficou órfã ou a sós com um criador em que acredita humildemente, mas não entende.
O sino da capela de Aguim chama os fiéis acabrunhados e penitentes para a adoração do seu deus silencioso e invisível e eu olho o Sol belo e apocalíptico por entre o fumo dos incêndios de verão e comovo-me, incrédulo e órfão, até às lágrimas.